"Coma Comida. Não em excesso."
Michael Pollan - Em Defesa da Comida

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Jejuar pode ?




Um fato já bem conhecido é que estudos mostraram que a redução do consumo de calorias em torno de 30% estende a vida ativa em um terço, ou mais, em muitas espécies animais. Estes estudos confirmaram estes achados para nemat´deos, mosca de frutas e roedores, por exemplo. Mas quando se trata de primatas e seres humanos estes achados ainda são polêmicos. Mas mesmo que a restrição calórica não ajude a viver mais, ela certamente permitirá uma qualidade de vida melhor, ao reduzir os riscos associados com a obesidade e excesso de peso.


A grande dificuldade de se praticar a restrição calórica é a sensação de fome que acompanha estes regimes. Existem algumas estratégias sendo estudadas. uma foi relatada aqui no blog recentemente e consiste na restrição de carbohidratos (e calorias) 2 vezes por semana. Outra alternativa seria o jejum intermitente. O jejum intermitente pode ser feito de duas maneiras básicas: ficando o dia sem comer, ou de maneira mais facil, saltando refeições. Novos estudos indicam que roedores que se alimentam livremente em um dia e jejuam no dia seguinte, conseguem os mesmos benefícios dos que ficam em constante restrição calórica. Na verdade, em algumas situações, eles se mostraram até mesmo mais saudáveis que estes últimos. (Mattson,M - National Institute of Aging- 2003) .


Ao contrário do que se imagina as pesquisas sobre restrição calórica são antigas, tendo se iniciado na década de 1930, com os estudos de Clive McCay da Universidade de Cornell.  Desde então outros avanços da medicina ofuscaram esta ideia. Mais recentemente, Mattson e seus colegas mostraram, em roedores,  que o jejum intermitente protegem neurônios contra vários tipos de estresse prejudicial. O cérebro destes animais fica mais resistente a toxinas que induzem danos celulares semelhantes aos que as células sofrem quando envelhecem ( acidentes vasculares, doença de Parkinson, déficits cognitivos)




Mattson avalia que o jejum intermitente funciona como uma forma leve de estresse, que acela continuamente as defesas celulares contra danos moleculares. O jejum ocasional aumenta o nível das "proteínas chaperonas" que evitam a união incorreta de outras moléculas na célula; aumentam os níveis de fatores neurotróficos derivados do cérebro (BDNF). Baixos níveis de BDNF têm sido associados a doenças cerebrais que vão da depressão ao Alzheimer. O jejum também acelera a autofagia, um sistema de descarte , que nos livra de "lixos celulares" como moléculas danificadas, como as presentes na doença de Parkinson ou no Mal de Alzheimer.


Além disto, as céluas se tornam mais sensíveis à insulina. Outro estudo com roedores, realizado no Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia, mostrou que roedores que se alimentaram com dieta gordurosa oito horas ao dia e depois jejuaram o resto do dia, não desenvolveram obesidade, nem apresentaram níveis elevados de insulina.


Apesar do crescente entusiasmo com o jejum intermitente, os testes clínicos ainda são poucos e não há estudos para que se saiba seu efeito a longo prazo. Todavia um antigo estudo espanhol (1956)  pode ter lançado alguma luz sobre esta questão. Sesseta homens e mulheres idosos jejuaram e se fartaram de comer em dias alternados por três anos. Os sessenta participantes do estudo, foram internados por 123 dias e três morreram . No grupo controle, que não jejuou, de 60 pacientes, foram 219 dias com internações e 13 morreram.



Mas nem tudo são boas notícias. Um estudo brasileiro, de 2011, em roedores, sugere que o jejum intermitente, a longo prazo, pode aumentar os níveis sanguíneos de glicose e de oxidantes nas células. Além disto, Mattson, em outro estudo de 2010 mostrou que roedores submetidos a jejuns periódicos, desenvolveram uma ainda misteriosa rigidez da musculatura cardíaca, resultando em insuficiência deste órgão.


Apesar de todos estes cuidados, realmente, quando se pensa evolutivamente, a invenção de três refeições ao dia é um ato moderno. É muito provável que os nossos ancestrais passassem por períodos intermitentes de jejum , por causa da escassez e da dificuldade em conservar alimentos. Agora o Batata Frita pergunta :Não seria a nossa sensação de culpa, após uma alimentação copiosa, um sinal de alerta nos estimulando a jejuar e "pagar" o nosso pecado?
(Baseado e transcrito do artigo: Jejuar é Benéfico ? David Stipp. Scientic American Brasil 2013,111: 24-5)

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